Um conto portuguez: episodio da guerra civil: a Maria da Fonte

Um conto portuguez: episodio da guerra civil: a Maria da Fonte

Author:
Miguel J. T. Mascarenhas
Author:
Miguel J. T. Mascarenhas
Format:
epub
language:
Azores

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Author: Mascarenhas, Miguel J. T.
Portugal — History — Maria II
1834-1853
Um conto portuguez: episodio da guerra civil: a Maria da Fonte

UM CONTO PORTUGUEZ

UM CONTO PORTUGUEZ

EPISODIO DA GUERRA CIVIL

A MARIA DA FONTE

POR

MIGUEL J. T. MASCARENHAS
PORTO
Typographia Lusitana
84–Rua das Flores–84
1873.

DEDICATORIA

A MEU FILHO

GASPAR TEIXEIRA DE SOUSA MASCARENHAS

Dedico-te o meu unico livro.
Dos variados escriptos meus, é este só que aprecio, porque empreguei n’elle todo o meu cabedal, vontade tenaz, e a escrupulosa consciencia dos quarenta annos repletos de provações.
Principiado na convalescença de perigosa enfermidade, á cerca de quatro annos, só hoje foi concluido. É certo que precisei estudar, e ler muitos livros portuguezes de lei; mas a demora na conclusão do «Conto Portuguez», deve, como sabes, tambem ser attribuida aos meus constantes padecimentos physicos, que me não consentem atturados trabalhos de nenhum genero.
Escolhi-te para esta dedicatoria, porque tens no peito por tua indole e minha insinuação, bem gravados todos os nomes das pessoas a que devemos eterno reconhecimento: és como um ponto de reunião dos nossos bons amigos que assim me parece contemplar sem o melindre da preferencia.
Guimarães, 12 de Agosto de 1873.
Teu pae muito amigo

Miguel J. T. Mascarenhas.

PROLOGO

Não ha forças humanas que nos destruam as tendencias.
Quando o pae d’um antigo poeta latino castigou severamente o filho por escrever poesias, ouviu do castigado um famoso verso heroico, como promessa de não compôr mais versos.
Desde os onze annos de idade que sinto uma irresistivel attracção para as letras.
Não frequentei escólas: apenas me ensinaram o–a, b, c. Em tal ignorancia, como chegar á realisação dos meus ambiciosos sonhos, que todos eram de vêr em letra redonda a minha «letra de mão»?!
Tive por unicos auxiliares da minha ambiciosa quanto ardua empreza, a muita leitura, de boa ou má digestão, o muito ouvido, a muita vontade, e a muita audacia, que é o fructo da ignorancia.
Tenho soffrido decepções amargas, por muitas das minhas impensadas obrinhas: se eu fui escrevedor de gazetas!…
Remirei os meus peccados, com a publicação d’este livro?…
Sugeitei a primeira parte do «Conto portuguez» á censura d’um dos mais eruditos litteratos do Minho, que se dignou fazel-a, com a pericia e imparcialidade dignas d’elle. Os seus prudentes e sabios conselhos, a que dei todo o peso, estiveram, por um triz, a matar a obra: depois de ler o bom juizo do meu sensor, tudo que eu havia escripto me parecia horrendo.
Resolvi, pois, concluir, e dar publicidade ao meu «Conto» sem continuar o prévio exame da pessoa competente a que me refiro. A rasão d’este proceder, que parece atrevido, está no vehemente desejo de ver publicada a obra, e na minha indole de hoje: tive já tanto de audacioso, quanto agora tenho de poltrão. O estudo, os annos, e tambem as doenças, concorreram para a mudança: vem sempre tarde o perfeito conhecimento da nossa ignorancia. Não curo do concerto, para não desabar o edificio. Se continuasse a apresentar o meu trabalho, como tencionei, ao mesmo excellente critico, e elle como é de crer, lhe notasse os defeitos,–morria o «Conto» com toda a certeza: morria, porque eu, por um erro apontado, desconfiava que fossem erros todas as palavras.
Seria melhor?…
São exactissimas as citações que faço tanto na parte historica como na romantica, colhidas em livros insuspeitos; e o que é acção do «Conto», sem ter allusões determinadas, é, com tudo, verdadeira: são muitos factos, meus conhecidos, desviados das épocas e logares em que se deram, atados e compostos com a arte de que posso dispôr, e postos a cargo de imaginarios personagens.
Resta-me dizer que, na pontuação, segui o systema de regular a escriptura pelas pausas do discurso. Regras, deduzidas dos principios ideologicos, e da grammatica geral, não estão ainda assentadas, e já é tarde para o serem. Assim, entendi que não errava, seguindo opiniões esclarecidissimas, que podem ser capitaneadas pela mui douta opinião do nosso immortal padre Vieira, manifestada, por exemplo, n’este famoso periodo:
«Arranca o estatuario uma pedra d’essas montanhas, tosca, bruta, dura, informe; e depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na mão, e começa a formar um homem; primeiro, membro a membro, e depois, feição por feição, até a mais miuda: ondeia-lhe os cabellos; aliza-lhe a testa; rasga-lhe os olhos; afila-lhe o nariz; abre-lhe a bocca; avulta-lhe as faces; torneia-lhe o pescoço; estende-lhe os braços; espalma-lhe as mãos; divide-lhe os dedos; lança-lhe os vestidos: aqui desprega; alli arruga; acolá recama: e fica um homem perfeito, e, talvez, um sancto, que se póde pôr no altar.»
Guimarães, 12 de Agosto de 1873.
Miguel J. T. Mascarenhas.

PRIMEIRA PARTE

HONRA

«No que o mundo chama honra ha muitas vezes mais vaidade que virtude».
(Dr. Corrêa de Lacerda).

UM CONTO PORTUGUEZ

I
TREZ DONZELLAS

«……………………………….
Tres, sim. Não cuides
Que te desgraças:
Vês?
Tres são as Graças,
Tres, as Virtudes,
Tres.»
«João de Deusflor do campo

Ao cahir da tarde de um dia que fôra borrascôso, no mez de Maria de 1846, avistavam-se, em preparados assentos de terreiro povoado de arvores floridas junto do atrio de nobre e vetusto domicilio, no valle de Sousa, das cercanias de Penafiel, tres formosas donzellas em colloquio intimo. O donaire de uma d’ellas e, a par de seu garbo senhoril, a riqueza e o bem posto de seus atavios, estremando-a das companheiras, annunciavam a elevada posição social a que pertencia. A natureza é que fôra egualmente prodiga para todas tres, no tocante a dotes physicos. Possuiam essas feições caracteristicas das nossas mimosas portuguezas–e não é cego patriotismo esta asserção–que reunem o que ha de seductor em todos os typos do mundo.
Chamava-se a fidalga D. Maria da Gloria da Mesquita Bandeira e Abendanho: por menos euphonico que pareça este ultimo appellido–seja dito aqui ligeiramente–é muito nobre e muito peninsular.1
D. Maria achava-se no gôso de todas as caricias da familia, porque vira fallecer, um após outro, cinco irmãos varões, ficando a ser, por tal falta, o unico enlevo de seus nobres e abastados progenitores; como tambem usofruia o respeito admirativo de todos os mancebos de muitas leguas em redor de sua habitação, por ser esbelta; possuir cintura como de vespa; pés pequenissimos; mãos a que todos os poetas–e os democraticos mais que todos–chamam aristocraticas, por não encontrarem palavra mais significativa do bello; rosto comprido; tez pallido-rosa; nariz um tanto aquilino; olhos pretos, rasgados em fórma de amêndoa, e penetrantes; bocca, ainda que não mui breve, attrahente e engraçada, pelos alvissimos dentes que sustinha, e delicioso sorrir que semeava; cabellos que se lhe formavam em natural e opulenta corôa; piso de alvéloa sobre gêlo, e… mais de trezentos mil cruzados em dote.
Digamos em abono de poucos dos frequentadores da morada de D. Maria, que as magnificas e rendosas propriedades da gentil fidalga, entravam, só por ultimo, nos calculos que faziam, e nos sentimentos que manifestavam.
A donzella que apresentamos como principal heroina do nosso conto–que á força de ser verdadeiro ha de parecer inverosimil–apenas desmentia os seus nobilissimos antepassados na applicação ao estudo, e nos apreciaveis resultados que de tal ia colhendo. Era já mais de mediocremente instruida, e muito além do geral das senhoras portuguezas.
Sobre a instrucção, devia a Deus um talento investigador, que, junto ao espirito repentista do sexo, dava á briosa fidalga proveitosas vantagens.
Sustamos este bosquejo da nossa estremada heroina, que muita occasião teremos de pôr em relêvo seus dotes e qualidades.
As companheiras de D. Maria, chamavam-se Anna de Jesus e Rosa de Lima, estimadas filhas de dous dos muitos caseiros da fidalga. Eram muito parecidas, apesar de não conhecerem parentesco algum entre si, e tão similhantes uma á outra, que muitas vezes as confundiam, e lhes trocavam os nomes.
Fallaremos de fugida nos dotes physicos de Rosa e Anna: altas; delgadas; fórmas airosas, ainda que incompletas; tez alva; olhos azues; cabellos de fino ouro, e um todo encantador, que os modestos trajes não conseguiam abafar completamente, antes deixavam transluzir suas occultas bellezas.
Anna de Jesus era docil; timida; e de umas crenças religiosas, que tocavam na beatice. Ao avêsso, Rosa de Lima, era agil; viva; falladeira; sequiosa de saber; crente, sim, na religião de seus paes, mas desprendida de certas apparencias, a que ella sabia chamar phantasias sagradas.
Anna, interrogada, demorava as respostas que dava, e sahiam-lhe, por assim dizer, coadas pelo receio de não acertar. Rosa, respondia a tudo com a rapidez do relampago, e algumas vezes, com admiravel acerto. Ambas deviam á boa indole, e amisade de D. Maria, o saberem lêr e escrever, quasi correctamente, pelo que, e tambem pela convivencia com a esmerada e voluntaria preceptora, mostravam uma util superioridade ás demais donzellas da mesma classe.
A mais velha das nossas tres heroinas, que era a fidalga, contava apenas dezoito primaveras.
Rosa, e Anna, ignoravam a edade que ao certo tinham, sustentando, com tudo, o pueril capricho de que não era mais velha uma do que a outra.
Rosa de Lima, mal conhecera o pae, fallecido ha dez annos, que fôra desde rapaz caseiro em uma das propriedades do casal de D. Maria, onde a viuva e a filha foram conservadas, mesmo com prejuizo do bom amanho das terras, como costumavam proceder os bons fidalgos portuguezes, em grata memoria d’aquelles que bem os serviam. A mãe, alquebrada pelos trabalhos mais que pela idade, tudo confiava da sua querida Rosinha. E sempre na filha tivera embebidos os olhos, e a alma presa.
Rumorejava o povo contra o extremo maternal da mãe de Rosa, conhecida por Emilia do Adro, attribuindo-lhe causas mysteriosas, o que mais d’uma vez fôra origem de mágoas para o marido, José do Adro, o fallecido pae de Roza.
Quasi sempre, o povo condemna sem averiguar, d’onde lhe vem o ser pouco certeiro nos juizos que fórma, embora tenham alvo, proximo ou remoto, os rumores de que se faz echo.
Anna de Jesus, vivia na companhia de seus paes, ainda novos e vigorosos, e de quatro irmãos mais velhos, que eram completos homens do campo. Empregava-se no arranjo do bragal, e misteres internos, e quasi desapercebida passava, a existencia da timida Anna, no centro de sua laboriosa e rude familia.
Não deve ser estranhada a confiança que D. Maria da Gloria dava, como iremos conhecendo, ás filhas de seus caseiros. E de certo o não estranham, aquelles dos leitores que bem conhecerem a distincta affabilidade no trato da verdadeira nobreza de Portugal, mórmente com as pessoas de condição humilde.
Corre um tempo pouco favoravel á nobreza de sangue, no dizer dos que só d’esta herança desdenham.
Respeitam-se todos os titulos hereditarios, menos aquelles, que provam uma geração briosa, e heroica!
Porquê?
É facil a resposta, a quem a quizer dar em boa fé: ralha-se do que se não póde ter. Adquirem-se bens de fortuna, distincções, tudo: só não é possivel mudar-se o berço. E quantos o mudariam, se podessem, mesmo na occasião do seu mais frenetico vociferar contra a nobreza herdada!…
Sejamos justos: haja consideração para tudo que o merece, que o bello é de todas as classes sociaes.
Descender de boa extirpe, é indubitavel gloria, e tambem onus, que obriga a muito.
Os que hoje adquirem nobreza,–e é comezinho o accesso,–se podessem testimunhar d’aqui a trezentos annos os gabos de seus fidalgos descendentes aos heroicos avós, não ficariam repletos de intima alegria?
Abrandem, pois, os propagadores demagogicos, as democraticas íras, em que decerto já tem parte o muito plebeu auctor do conto, e deixem-nos dizer, com um dos nossos doutos portuguezes, que não ha cousa mais estimavel e bella, que a nobreza do sangue, junta á nobreza do coração: é uma saphira engastada em oiro purissimo.
O colloquio das tres donzellas, fôra assim:
–Pareces-me hoje mais pensativa, ainda que de costume, minha estimavel Anna, o que tens tu?
–Pensará talvez nas Ladainhas, e no jejum, fidalga;–respondeu, pela interrogada, a falladeira Rosa.
–Ora vamos, travessura da vida!… Já te prohibi que me chamasses fidalga, como tambem te fiz vêr, o respeito que se deve a tudo que prende com a religião que professamos. Bem deves conhecer, que tenho auctoridade de mestra, e que posso chamar á palmatoria a discipula rebelde…
–Diz bem fidal… snr.a D. Maria; e aqui tem a mão, sem fazer momices… mas eu só digo estas coisas no intuito de animar um pouco a nossa Annitas, que parece mesmo a figura da tristeza, quando não ha motivos para lagrimas.
–Tu pódes lá saber, o que vae no coração da nossa amiga, doudinha?
–Sabe de certo, minha senhora, porque entre nós tres não ha segredos;–respondeu a custo a questionada donzella.
–Não ha, não… Juro por Santa Rosa de Lima, da qual tenho o nome e desejara ter as virtudes, que a nossa scismadora, Anna de Jesus, me tem revelado todos os seus mais vedados pensamentos… Por exemplo: se tem a desventura de deixar uma noite cahir a candêa, e emborcar o azeite, para logo prevê graves successos, que fielmente me vae narrar… Se estala um vidro na casa, toda se encolhe, como a sensitiva, empallidece, treme, e diz-me, depois, que grandes calamidades nos esperam… Se entra no meu casebre, e vê que eu, por melhor disposição ou limpeza, deixei ficar a minha cama com os pés para o lado da porta, faz tal exclamação, que devéras me assusta; e…
–Basta, tontinha, basta… interrompeu D. Maria, entre frouxos de riso. Não será possivel conseguir que tu deixes de atormentar, com as tuas graças, a nossa commum amiga?
–Deixe-a fallar, minha senhora, que eu necessito ouvil-a, a vêr se perco algum do meu natural acanhamento. Conheço-me defeituosa, e sinto não ter a necessaria força para vencer os meus defeitos. Apraz-me sentir um aviso de Deus, nas jocosas palavras da boa Rosinha.
–Nem tanto, pequena, que me arrependo já… Fazeres de mim, por obra do Eterno, um propheta de saias, é mais pesado do que ouvir-te quantos preconceitos aprendeste de teus crédulos parentes.
–Se tu confessas que foram aprendidos, como posso eu ter culpa das culpas alheias?… Não é assim, minha senhora?
–Dizes pouco, mas sempre bem. É o resultado de quem pensa o que diz. O favor que me fazes de tua senhora, é que eu não queria receber. Chamai-me só D. Maria, já que não quereis habituar-vos a um tratamento mais intimo, e proprio das nossas idades, como eu appetecia.
–Era o que faltava! As rainhas bem amigas são das damas do paço, e mais estas ajoelham-se para beijarem a mão de sua real ama…
–Invejo-te a verbosidade e o talento, querida Rosa… Has-de chegar a muito se fôres bem fadada por Deus.
–Vês, Rosinha, minha vassalla, que o mal da inveja tambem toca nas almas como a da nossa Annitas!?
–Aquillo, senhora, não é inveja, é mostrar que pensa o que diz… mas é muito de crêr que nem sempre diga o que pensa
–Com a tua pessoa, em jogo de bons ditos, minha doutora, não ha partido… Olhai!… Se não são visões do crepusculo, o que eu diviso, é muita gente reunida na serra de Guilhufe!…
–É muito povo, é, snr.a D. Maria! Responderam, a uma voz, surprehendidas, as duas amigas da fidalga.
–É caso extraordinario! A esta hora, e n’um dia de serviço!… Ahi vem o sobrinho do snr. reitor, que nos vai dizer o que significa aquelle ajuntamento…
Interrogado, o recem-vindo, pelas tres donzellas ao mesmo tempo, respondeu,–precedendo um cumprimento de cabeça, por lhe não darem logar a outro–é… a «Maria da Fonte!»

1 Na Historia da casa de Lara, e n’um manuscripto, de 1676, do padre Manoel da Purificação Magalhães, vê-se escripto==Avendanho==; mas os modernos senhores do nome, assignam-se–Abendanho. A nobre familia dos Abendanhos, veiu para Portugal no tempo de El-Rei D. Diniz. O seu brasão compõe-se de cotta d’armas de prata, em campo azul, trespassada por tres setas manchadas de sangue, com a legenda: Sine sanguine non est victoria.

II
RUGIDO

«Não vêdes, que nos destruiremos a nós, e á nossa Republica, se intentarmos cousas, que não podem ser, porque nos hão-de dar na cabeça todos esses remedios?»
(VieiraARTE DE FURTAR.)

Ha palavras, que excitam o espanto dos ouvintes, sem visivel rasão justificativa do enleio: aquellas–«Maria da Fonte»–tiveram esse condão. Interrogado, e interrogantes, entraram silenciosos na casa solar de D. Maria da Gloria, em direcção á sala chamada das visitas, onde estavam os velhos senhores d’ella.
Não seremos exagerados dando o nome de palacio, á nobre e grande habitação, que fazemos aqui figurar. Antes de se chegar á sala de recepção, encontravam-se immensos salões e repartimentos, tudo a desafiar, pela solidez, a acção do tempo, como são quasi todas as antigas edificações portuguezas.
Na sala de visitas, para não desmentir o adagio muito nosso,–«Em Maio florido, ainda ao brasido»–havia lume no fogão. Em cima de uma mesa circular, estava um grande candieiro de metal amarello, com quatro bicos; e postos nas demais mesas, castiçaes de prata, com vélas de cêra: moveis de pau santo, cadeiras de espaldar, com botões de metal e arabêscos esculpidos em sola, e denotando haver sido mudas testimunhas da passagem de algumas gerações.
Nas duas portas, que nos topos da sala se defrontavam, estavam pendentes de fortes lanças reposteiros de grossa baêta encarnada, em que se viam bordadas as armas de familia. Ao lado dos reposteiros, occupando parte da parede, pendiam dous grandes quadros, representando, um d’elles, S. Sebastião, e o outro Santa Isabel, primores de arte do celebre pintor portuguez Affonso Sanches Coelho, que foi protegido pelo snr. principe D. João, pae de El-Rei D. Sebastião, e depois apreciado por Filippe II de Hespanha, onde morreu mui favorecido da côrte.
Na parede fronteira a nove rasgadas janellas, que olhavam para um lindo jardim, e famoso vergel de fructiferas arvores, estavam suspensas de grossos cordões de sêda, de côr verde, as arvores genealogicas dos Mesquitas, Bandeiras, Abendanhos, Souzas, e Mellos; collocados por cima d’ellas, seis antiquissimos retratos de antepassados d’aquelle solar.
Pelas mesas da sala, viam-se espalhados alguns livros, e periodicos da época, merecendo especial menção um alto e largo volume, agasalhado em veludo côr de rosa bordado a ouro, que dava a razão dos nobres appellidos da familia, e, minuciosamente, contava as honras, e mercês a ella concedidas, pelos monarchas, e senhores de Portugal.
Sebastião da Mesquita Bandeira de Mello, pae de D. Maria da Gloria, e verdadeiro representante e possuidor d’aquella casa, era um velho fidalgo portuguez, dos rarissimos que chegaram até nós, sabendo fazer acatar a nobreza de sangue, que é ephemera sem a nobreza da alma. Era alto; direito, apesar dos seus 70 annos; com fartos bigodes; olhos grandes, castanhos-escuros; de olhar suave, que elle sabia, a proposito; tornar imperativo; fronte elevada; cabellos brancos, e ar magestoso.
Affavel em extremo, só era Sebastião da Mesquita, intransigivel, com os desvios da honra. Recebia gentilmente em sua casa todos que n’ella se acolhessem, e mui difficil seria não voltar alli tendo-se lá entrado uma vez. O verdadeiro culto, que prestava á nobreza, levava-o a ser nimiamente sevéro para as fraquezas dos nobres. O que fosse fidalgo, havia de mostral-o mais pelas suas acções do que pela ostentação de seus pergaminhos: era este um dos invariaveis preceitos do velho nobre.
Não se attingiam de repente as sympathias de Sebastião da Mesquita. Tratando a todos–nobres e plebeus–sem odiosas distincções, sabia occultar as preferencias, que talvez sentisse. Ainda assim, sustentava, sempre que se lhe deparava occasião, conversas demoradas e intimas com Arthur Soares, sobrinho do reitor da freguezia, e, só este, no dizer dos analysadores, merecia a

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